PORTO SEGURO E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

PORTO SEGURO E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

A frequência de eventos climáticos extremos no mundo e no Brasil deveria servir de alerta de que o problema do aquecimento global não é mera especulação acadêmica.

Seus efeitos em termos de perdas de vidas e devastação socioambiental e econômica são muito concretos e significativos para serem ignorados por qualquer setor e, especialmente, por um segmento tão importante como o portuário.

Estudo divulgado há algumas semanas pela Agência Nacional de Transporte Aquaviário (Antaq), a agência de desenvolvimento alemã (GIZ) e outras entidades preenche uma lacuna de conhecimento necessário para formulação de política pública de investimentos portuários.

Segundo o referido trabalho, “os impactos nas operações portuárias em função da mudança do clima já são uma realidade no Brasil e, mantidas as condições atuais, há uma tendência de piora neste cenário”.

Em 7 dos 21 portos analisados pela pesquisa, dentre os quais se encontra o Porto de Santos, verificaram-se níveis de risco “alto” ou “muito alto” diante da ocorrência de vendavais. O número sobe para 16 portos quando se considera o cenário para 2050.

Uma boa gestão de risco nos portos recomendaria a adoção imediata de medidas de adaptação e mitigação para eventos que fogem dos padrões das séries históricas de longo prazo.

Contrariando os céticos, o último relatório do Painel Intergovernamental para a Mudança de Clima (IPCC), ligado à ONU, alerta que “mudanças recentes no clima são generalizadas, rápidas e estão se intensificando, não tendo precedentes em milhares de anos”.

EFEITOS DEVASTADORES

Não é preciso ser um ambientalista radical para admitir os potenciais efeitos devastadores das mudanças climáticas sobre a economia.

Segundo estudo do Instituto Swiss Re, entidade ligada a uma das maiores resseguradoras mundiais, uma elevação de 3,2º C até o final do século acarretaria uma queda do PIB mundial de 18%, mais de cinco vezes o declínio do PIB mundial com a crise da covid 19.

Extremos climáticos como vendavais e tempestades e a elevação do nível do mar gerariam danos catastróficos para a economia nos âmbitos local, regional e nacional. Basta dizer que o setor portuário brasileiro movimenta cerca de 95% da corrente de comércio internacional e 14% do PIB.

Urge, portanto, incluir nos investimentos portuários medidas de adequação das estruturas aos novos padrões climáticos, bem como ações preventivas importantes como a revisão permanente dos planos de contingência para catástrofes.

Isso exige uma participação de todos os agentes do complexo portuário e uma ampla colaboração entre os setores público e privado.

Chama atenção em particular que nenhum porto adote na atualidade seguro contra mudanças climáticas. É premente que a indústria seguradora e resseguradora também atue para prover os mecanismos necessários de mitigação de risco climático.

Em um momento de modernização e maior participação do setor privado nos portos não há tempo a perder discutindo se há ou não mudança climática relevante.

Já passou da hora de adotar medidas de adaptação e mitigação que garantam um porto seguro sem o que não se pode pensar em uma economia resiliente.

Fonte: A Tribuna On-line / Gesner Oliveira